«A
atenção crescente que se vem prestando ao valor
das relações humanas, dos seus requisitos, manifestações
e rituais levou a um interesse ainda maior pelas questões
do protocolo, traduzido no número crescente de empresas
que recorrem à consultoria nesta área antes de lançarem
os seus quadros num novo mercado.
Cada
mercado tem as suas leis e tentar entrar num mercado diferente
sem conhecer as regras do jogo é o mesmo que decidir sentar-se
a uma mesa de “bridge” pensando que o jogo não
deve ser muito diferente da “canasta”. Ora a diferença
é abissal. Ignorá-la é abrir a porta a humilhações
e derrotas que podem, e devem, ser evitadas»
«A
cultura permite organizar a actividade do grupo e, sobretudo,
permite prever o comportamento de vários elementos do grupo.
Conhecendo as regras do jogo é mais fácil as pessoas
desse grupo relacionarem-se entre si e viver em harmonia e segurança.
Como a cultura de um grupo inclui um sistema de valores e esse
sistema contém sempre uma imagem da sua própria
excelência, as interferências mais difíceis
de eliminar são, de facto, as sociais ou culturais.
Quando
se ultrapassam as fronteiras do grupo, quando se tenta estabelecer
uma comunicação inter-cultural, as crenças
são desafiadas. Confrontados com um sistema de valores
diferente, os elementos do grupo ficam desnorteados e sentem-se
ameaçados.»
Lidar
com visitantes que têm hábitos e culturas muito diferentes
das nossas não é, por isso, tarefa fácil.
Ainda que nos tenham assegurado que a globalização
ia transformar o vasto mundo numa pequena aldeia, persistem distâncias,
diferenças e dificuldades que é preciso ultrapassar
para se obterem os resultados desejados.
Um
dos problemas é o da língua. O chinês é
uma língua extremamente difícil. Apesar de haver
uma língua escrita, que todos conseguem ler, em cada região
se lê de maneira diferente e nem os chineses se entendem
a falar entre si. Claro que a comunicação é
sempre possível entre pessoas que falam línguas
diferentes, por intermédio de um intérprete. Mas
na China nunca saberá se o que disse foi bem traduzido.
Para
além da língua, há outros problemas –
problemas culturais – que persistem mesmo se as fronteiras
entre os países são cada vez mais ténues.
Cada povo tem a sua maneira de ser, o seu modo de vida, os seus
usos e costumes, os seus valores e as suas convicções,
a sua identidade cultural. E essa identidade condiciona sempre
a comunicação entre pessoas oriundas de países
muito diferentes.
«É
óbvio que não é com algumas linhas sobre
diferenças culturais que se fica a conhecer determinada
realidade com profundidade e correcção. É
impossível conhecer plenamente uma cultura através
da mera memorização do código de valores
predominante. E, mesmo que fosse possível enumerar todos
os tabus e todas as regras de conduta de um país, não
haveria ainda assim um conhecimento pleno desse país. Toda
a gente sabe que não é apenas decorando dicionários
e gramáticas que se aprende a falar bem uma língua
estrangeira.»
Mas
o conhecimento e, sobretudo, o respeito das diferenças,
que separam povos e nações, culturas e continentes,
ajudam a garantir o sucesso da organização de actos
multiculturais. Estes são os dez erros a evitar quando
lidar com entidades chinesas:
1.
Nunca perder a face
2. Não criticar ninguém
3. Não ter pressa nem mostrar impaciência
4. Não fazer gafes
5. Não elogiar em excesso
6. Não usar linguagem corporal errada
7. Não invadir a bolha de privacidade
8. Não se engane na fórmula de tratamento
9. Não ignorar a etiqueta à mesa
10. Não quebrar tabus nem superstições
___________________________________
1.
Nunca perder a face
A
característica mais importante da cultura chinesa é
a preocupação confucionista de «não
perder a face». (mianzi). Quem perde a face (ou a imagem
positiva de si próprio) está perdido. Mas quem fez
perder a face a um asiático também não fica
melhor. Nunca critique nem ponha em causa ninguém em público.
As perguntas devem ser formuladas cuidadosamente: «sim,
não ou não sabe?». Os chineses não
gostam de dizer que não para não perderem a face
nem o fazerem a si perder a face. Se lhe responderem duas vezes
que «é inconveniente», mais vale não
insistir…
Revelar
desconhecimento é uma vergonha. Para não «perder
a face», nenhum chinês confessará, por exemplo,
que não percebe o que lhe está a dizer. Não
pergunte ao taxista se sabe onde é o sítio X. Ele
acenará com a cabeça e leva-o para onde calhar.
Mais vale pedir no hotel para lhe escreverem a direcção
do seu encontro numa folha de papel.
Em contrapartida, pode pedir desculpa se se enganar. Na China,
um pedido de desculpas por um engano não é uma admissão
de culpa e não faz perder a face: é considerado
uma virtude ser o primeiro a fazê-lo, a fim de amenizar
qualquer situação desagradável. A humildade,
sinceridade e a cortesia são valores muito apreciados pelos
chineses.
Em resumo, guardar a face e nunca fazer perder a face dos seus
interlocutores é a regra de ouro. Fazer perder a face de
alguém em frente do grupo, seja criticando, seja desrespeitando,
seja insultando, é um erro lamentável e que impedirá
a cooperação a partir desse momento. Mas, se pelo
contrário, valorizar alguém à frente dos
superiores isso será muito positivo. Na China, dá
prestigio contribuir para o prestígio dos outros.
2.
Não criticar ninguém
Uma
das maiores dificuldades da comunicação inter-cultural
é que todas as culturas se acham superiores às outras.
Por isso é tão difícil para quem se encontra
inserido num sistema de valores ocidentais perceber um sistema
de valores orientais: «para quê perder tanto tempo?»
Ou: «para que são necessários tantas vénias?».
Mesmo questionando os valores das outras culturas, ninguém
deve menosprezar o facto de que a cultura tem uma influência
profunda na comunicação com chineses.
É
importante perceber que o continente asiático é
muito influenciado pelo confucionismo, enquanto no Ocidente prevalece
o humanismo. Ou seja, os ocidentais são mais individualistas
e os orientais mais colectivistas. Esta filosofia de vida influencia
qualquer negociação: o que interessa é o
bem do grupo ou da organização.
Na
China não se tomam decisões durante as negociações
mas apenas em círculo fechado. Quem intervém durante
a negociação não é a mesma pessoa
que toma a decisão final e que assistiu à troca
de argumentos com ar impenetrável, acenando a cabeça
como se concordasse com tudo e o seu contrário. Na condução
das negociações, os asiáticos são
vagos, subtis e ambíguos por oposição à
maioria dos ocidentais, habituados a um estilo mais directo, inequívoco
e preciso.
Em
O Mandarim de Eça de Queiroz, Teodoro descrevia de forma
caricatural os chineses: «Amor dos cerimoniais meticulosos,
o respeito burocrático das fórmulas, uma ponta de
cepticismo letrado e também um abjecto terror do imperador,
o ódio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo
da tradição, o gosto das coisas açucaradas».
Na China, os rituais, a etiqueta e o protocolo continuam a ser
fundamentais enquanto que noutras paragens, mais a ocidente, são
considerados coisas do passado.
Não
critique nada nem ninguém. Mais vale mudar de assunto quando
não concordar e nunca deve irritar-se com demoras ou imprecisões.
Por outro lado, criticar em público um elemento da sua
equipa ou dizer mal do seu país também é
muito mal visto. Quando um elemento do grupo cai em desgraça
arrasta todo o grupo com ele. Trata-se mais uma vez da busca confucionista
da harmonia e da necessidade de não fazer perder a face
a ninguém.
Se
lhe desapareceu qualquer coisa, nunca acuse ninguém nem
diga que foi roubado. Mas, se se mostrar contristado e disser
que não consegue encontrar o seu telemóvel, ou um
objecto que herdou dos seus antepassados, ele talvez volte a aparecer…
3.
Não ter pressa nem mostrar impaciência
Para
o norte americanos, “tempo é dinheiro”. Para
os chineses, “tempo é tempo” e “dinheiro
é dinheiro”. Na China acredita-se que a paciência
é sinónimo de um carácter forte, sendo um
valor acrescentado em qualquer negócio. Ninguém
vai direito ao assunto, antes de muitos acenos, rodeios, formalidades
e evasivas. Os chineses cultivam os silêncios e as pausas
enquanto ponderam.
Os
chineses dizem que os ocidentais estão sempre cheios de
pressa e que preferem levar o contrato já assinado, mesmo
que essa assinatura aconteça em cima do momento da partida,
sem que tenha havido tempo para rever todos os pormenores. Por
serem negociadores astutos e perseverantes, prolongam as negociações
ao máximo e controlam o tempo e o rimo ao longo de todo
o processo.
Os
chineses podem até assinar o contrato, mas é depois
da assinatura que começam as verdadeiras negociações.
Assinar um contrato para um chinês significa apenas que
estabeleceu um relacionamento pessoal (guan xi) com o outro signatário
e que, a partir desse momento, ambos podem pedir e esperar receber
favores um do outro. Quando se consegue estabelecer este relacionamento
pessoal, não se deve mudar de interlocutor. Se o fizer,
a relação comercial começa do zero.
“Guanxi”
é uma expressão fundamental, que designa a complexa
rede de relações indispensáveis ao funcionamento
social, político e organizacional na China. No relacionamento
com chineses há como que uma conta corrente que deve estar
sempre equilibrada. Se lhe dão um presente, deve retribuir;
se o convidam, deve fazer o mesmo. Se pedir um favor, vai contrair
uma obrigação.
Não tente queimar etapas e apresentar-se directamente a
um chinês. É preferível ser apresentado por
um conhecimento comum. Para um chinês o conhecimento pessoal,
a ética e a confiança são fundamentais.
4.
Não fazer gafes
As
comparações são sempre de evitar. Mas confundir
a cultura chinesa com a japonesa é uma gafe imperdoável.
Os chineses orgulham-se de ser a civilização mais
antiga do mundo, com mais de quatro mil anos de história.
Consideram que as grandes invenções são feitas
por chineses e que os japoneses se limitam a introduzir alterações
mas não conseguem inventar nada. E, de facto, foram os
chineses que inventaram a pólvora (além do papel,
do compasso, da bússola, da impressão de livros,
etc.).
Em relação aos rituais, convém informar-se
antes do que deve ou não deve ser feito para granjear a
boa vontade dos seus interlocutores. O protocolo de qualquer negociação
é muito rígido: a delegação visitante
deve entrar a sala precedida pelo chefe da delegação.
Este deve começar por cumprimentar na sala o líder
ou a pessoa mais velha. A cultura chinesa trata com deferência
as pessoas mais velhas e por isso a fila para os cumprimentos,
mesmo que se trate apenas de uma reunião de negócios,
é sempre alinhada a partir do líder ou da pessoa
mais velha até aos mais novos. O chefe da delegação
costuma ficar sentado no topo da mesa virado para a porta.
As negociações são longas e precedidas de
muito chá e simpatia. Deve esperar que o seu anfitrião
o interrogue sobre o que quer falar antes de entrar no assunto.
As mulheres estão plenamente emancipadas e, ao contrário
do que sucede no Japão, as suas opiniões são
tidas em conta. Muitas ocupam cargos de decisão, sendo
tratadas de acordo com a sua posição hierárquica.
Se levar uma equipa para as negociações (e deve
fazê-lo para não ficar em desvantagem), tenha a preocupação
de hierarquizar os seus membros, para facilitar a colocação
à mesa. Se forem todos do mesmo nível, o critério
será a idade. Os membros da sua delegação
devem ter o mesmo estatuto hierárquico da delegação
chinesa. E é preferível haver um porta-voz, para
que nenhum membro da delegação contradiga o que
outro já disse.
5.
Não elogiar em excesso
A humildade e a modéstia são virtudes muito apreciadas
pelos chineses, que reagem mal quando os elogiamos. Aceite com
humildade os elogios, se os fizerem, dizendo sempre que não
é merecedor e não elogie nenhuma parte do corpo
de um chinês.
Ao entregar a sua oferta deve sempre pedir desculpa pela modéstia
da mesma, que não é digna da pessoa que a vai receber.
É tradicional, na cultura chinesa, pedir desculpa pela
modéstia da oferta mesmo que esta seja magnífica.
Uma médica chinesa a trabalhar em Portugal convidou uns
amigos para jantar. Quando os convidados chegaram, ela desfez-se
em desculpas por não ter grande coisa para lhes oferecer.
Eles acharam que deviam desdramatizar e ofereceram-se para a levar
a jantar fora. O quiproquó só se desfez quando passaram
para a sala de jantar e viram o “banquete”, que ela
passara a tarde a preparar.
6.
Não usar linguagem corporal errada
Os
chineses dizem que os ocidentais são muito superficiais,
porque acreditam naquilo que os outros dizem. Mais importante
do que aquilo que se diz para os chineses é a forma como
se diz. E também aquilo que não se diz.
Mesmo
que haja um intérprete, não deve falar a olhar para
o intérprete, mas para o chefe da delegação
chinesa. Não o ignore, mesmo que ele não perceba
uma palavra de português, fale na direcção
dele e olhe para ele discretamente, enquanto o intérprete
traduz.
Esteja
muito atento à linguagem corporal e saiba que, se o seu
interlocutor abanar a cabeça enquanto o ouve, isso significa
apenas que ele o está a ouvir. Os chineses cultivam o silêncio
e a arte de «mascar sementes de girassol», ou seja,
ter tempo para ponderar, meditar e compreender antes de tomar
qualquer decisão.
Não
basta por isso ter cuidado com o que se diz – mas também
com o que se faz. Na maior parte dos países apontar com
um dedo ou andar com as mãos nos bolsos é sinal
de má educação. Mas na China, além
destes gestos, também se deve evitar tocar no braço
do interlocutor.
Por outro lado, tudo o que se ouviu dizer, a ocidente, sobre a
importância de manter o contacto visual, deve ser esquecido.
Na China nunca deve olhar fixamente para os olhos da pessoa com
quem se fala. A menos que o propósito seja embaraçá-la.
O sorriso naquelas paragens não é sinal de alegria
ou simpatia, mas de constrangimento. E olhar fixamente para os
olhos do seu interlocutor pode ser interpretado como um confronto
hostil.
Nunca se irrite nem levante a voz. As confrontações
são de evitar, o objectivo a atingir é sempre o
consenso e a harmonia. Se tiver de transmitir más noticia
use um intermediário. A harmonia é um valor a preservar
em todas as circunstâncias.
7.
Não invadir a bolha de privacidade
A antiga etiqueta chinesa proibia qualquer contacto físico
e os chineses continuam a cultivar a distância física.
Hoje dão apertos de mão aos estrangeiros mas apenas
ao serem-lhe apresentados. O aperto de mão não é
enérgico mas leve e mais prolongado do que o ocidental.
Apertam a mão e inclinam a cabeça ao mesmo tempo.
E entre eles continuam a utilizar o “kow tow”, as
três vénias. A vénia é uma demonstração
de respeito pela pessoa que cumprimenta.
A demonstração pública de afecto entre pessoas
de sexo diferente ainda continua a ser rara. Evite abraços,
palmadas nas costas e grandes efusões de alegria. Mantenha
a distância e evite tocar no braço do seu interlocutor
mesmo quando lhe tem de indicar o caminho.
8.
Não se engane na fórmula de tratamento
A língua oficial é o chinês, baseado no dialecto
mandarim. Mas muitos chineses falam outros dialectos, como o cantonês.
È aconselhável aprender algumas expressões
mas tenha cuidado ao utilizá-las. Há uma forma de
dizer« bom dia» conforme se dirige a um superior ou
um inferior hierárquico, uma pessoa mais velha ou mais
nova, etc. Além disso na língua chinesa não
existem tempos de verbos e é preciso ter cuidado com as
traduções. É necessário juntar expressões
como “agora”, “amanhã” ou “ontem”
ao verbo “comprar”, por exemplo, para se perceber
se ”está a pensar comprar” “comprou”,
“vai comprar” ou “está a comprar”.
Use um tradutor qualificado: cada palavra chinesa pode ter muitos
significados dependendo do tom em que é dita.
Os
chineses apreciam muito os títulos (Director, Engenheiro,
Presidente, etc.) seguidos do sobrenome. Apesar da China ser um
regime comunista, não deve tratar ninguém por Camarada,
a não ser que pertença ao Partido Comunista. Os
chineses tratam-se pelo sobrenome e nunca pelo nome próprio
ou alcunha. Só os amigos íntimos e familiares é
que se tratam pelo nome próprio.
Os
sobrenomes chineses vêm à frente do nome, diferenciando-se
de Portugal e do Brasil, onde o sobrenome vem após o nome.
Mais um reflexo da cultura colectivista chinesa: o nome de família
é mais importante do que o nome individual e por isso aparece
primeiro. Muitas vezes há um nome geracional que pode aparecer
ligado por um hífen ao nome próprio ou separadamente
Li (sobrenome) Huang (geracional) Fung (nome próprio) ou
Li Huang-fung. Li é o sobrenome mais comum na China e significa
«ameixieira».
Ao falar com uma pessoa mais velha, é sinal de respeito
anteceder o apelido de «lao» (velho). O respeito pelos
mais velhos faz com que a idade seja mais importante do que a
hierarquia ou o sexo: apresenta-se sempre a pessoa mais nova à
mais velha, seja homem ou mulher. Numa auto-apresentação,
a iniciativa deve partir do mais importante. Deve indicar, além
do nome, o cargo, título académico, etc.
Leve muitos cartões de visita, se possível escritos
nas duas línguas. É um instrumento de trabalho indispensável.
Não abrevie nada e inclua o seu cargo ou posição
dentro da empresa. Se o logótipo da sua empresa for dourado,
isso será muito apreciado por ser sinal de prestígio.
O cartão será observado com toda a atenção,
visto tratar-se de um país onde se cultiva a hierarquia.
Entrega-se segurando com as duas mãos e virado de modo
a que o seu interlocutor possa ler o seu nome (de preferência
escrito em mandarim ou cantonês). Se o seu interlocutor
lhe entregar o cartão de visita dele, observe-o atentamente,
pois ele representa a pessoa que está na sua frente, e
coloque-o em cima da mesa em local visível para futura
referência e nunca no bolso. Para um ocidental, o cartão
é apenas um papel, mas para um chinês é um
documento importante.
9.
Não ignorar a etiqueta à mesa
É
muito importante ser pontual: a pontualidade representa o respeito
pelo compromisso assumido. Desmarcar em cima da hora é
falta de respeito em qualquer lado, mas, na China, é uma
ofensa gravíssima.
O
convite para um jantar deve ser repetido três vezes até
ser aceite. Não é costume convidar para casa e sim
para restaurantes e deve retribuir convidando para o restaurante
do seu hotel. O anfitrião chinês senta-se junto da
porta para dar ordens aos empregados e cede a presidência
ao convidado de honra, que fica sentado no topo da mesa, virado
de frente para a porta. Ao chegar junto da porta não deve
passar automaticamente à frente do seu anfitrião
mesmo que ele lhe faça sinal para passar. É de bom
tom recusar três vezes a passagem e depois fazê-lo,
agradecendo.
Em
caso de dúvida, mais vale perguntar. Não se guie
pelo instinto. Aquilo que é considerado boas maneiras num
país pode ser ofensivo no país vizinho. Em relação
ao comportamento à mesa, por exemplo, há gestos,
ruídos, atitudes que os ocidentais teriam dificuldade em
aceitar mas que são comuns na China.
Não
peça água, pois é considerado um insulto
não beber vinho. Se for abstémio, mais vale dizer
que está proibido pelo seu médico de tocar numa
gota de álcool ou que está a tomar antibiótico.
Quando dizem «Kampé», é um convite,
ou melhor, uma ordem para beber. O anfitrião é o
primeiro a comer e a dar sinal de levantar.
Deve
tentar comer com pauzinhos, mesmo que haja garfos na mesa. Mas
coloque-os sempre em cima do apoio que está ao lado do
prato: espetá-los no arroz ou colocá-los paralelos
em cima da tigela dá azar.
Sirva-se
das toalhas húmidas que lhe oferecerem para limpar as mãos
e a cara, mas não peça guardanapos se não
estiverem na mesa.
10. Não quebrar tabus nem superstições
Os
chineses são muito supersticiosos e seguem rigorosamente
as leis do «feng shui» ou da astrologia antes de tomarem
qualquer decisão. Evite criticar ou mostrar um ar de descrédito
se lhe explicarem que o dia que escolheu para a reunião
não é de bom augúrio ou que tem de colocar
uma fonte com água a correr na entrada do seu novo escritório.
Se
lhe oferecerem um presente e não tiver nada para retribuir,
não deve aceitar para não fazer perder a face. A
troca de pequenas ofertas faz parte do processo de “guan
xi”. O anfitrião começa por dar um presente
ao convidado, grato pela aceitação do convite. Agradeça
o presente, mas não desembrulhe. Retribua entregando os
seus presentes (sendo o maior para chefe ou anfitrião),
todos embrulhados em papel dourado, cor da prosperidade, ou encarnado,
cor da alegria. O azul-cobalto e o branco são as cores
associadas ao luto e aos cemitérios, devendo ser evitadas,
mesmo em embrulhos.
Também
deve ser evitado o oferecimento de chapéus ou bonés
de cor verde, pois significa ”marido traído”.
As cores na China têm um código simbólico
muito complicado e mais vale optar sempre pelo encarnado e dourado,
que são cores muito apreciadas.
Nunca
deve dar flores em número par nem usar crisântemos
na decoração. E nunca deve dar quatro objectos,
sejam eles flores ou livros. O ideograma que representa a palavra
quatro (“shi”) é igual ao que representa a
palavra morte. O número 8, em contrapartida, é muito
recomendado pois sugere prosperidade e evoca o infinito. Os números
múltiplos de cinco também são recomendados.
Nunca
ofereça relógios de parede ou de mesa. Em chinês,
“oferecer um relógio”, mesmo que seja um utilíssimo
despertador, significa “assistir um parente moribundo”.
Se
o símbolo da sua companhia for uma cegonha mais vale não
o colocar no cartão de visita: no ocidente a cegonha está
associada aos nascimentos, mas no oriente está associada
à morte.
___________
Para
sintetizar aquilo que disse sobre o encontro da cultura ocidental
com a cultura oriental, termino com dois provérbios. Os
portugueses, que não desistem à primeira dificuldade,
dizem que “água mole em pedra dura, tanto dá
até que fura”. Ao que os chineses respondem, com
ar seráfico, que “ser pedra à fácil,
difícil é ser vidro”...
Espero
que os desafios da multiculturalidade colocados pela globalização
em que vivemos não nos impeçam de ultrapassar as
diferenças e que este congresso nos ajude a trilhar as
novas rotas de um cerimonial que procura adaptar-se aos novos
tempos não ignorando crenças, convicções
e costumes alheios.
XII
CONCEP – Natal-RN- Brasil
26-28 de Outubro de 2005