Macau
- um legado de culturalidade
Por: Isabel Amaral
Presidente da Associação Portuguesa de Estudos de
Protocolo
Quando
soube que este congresso versaria sobre os desafios da multiculturalidade,
pensei logo no território chinês de Macau, região
multifacetada onde durante quase cinco séculos se celebrou
o encontro entre duas grandes civilizações e onde,
ainda hoje, se manifestam as marcas harmoniosas desse encontro
numa sociedade singular, alicerçada em valores humanistas
e com uma história de convivência entre povos, religiões
e filosofias de vida, sem paralelo no mundo
A
identidade de Macau, criada ao longo dos últimos quinhentos
anos, é diferente de regiões vizinhas, por ter conseguido
uma fusão do Oriente e do Ocidente diferente da que foi
imposta, durante menos tempo, pelos ingleses em Hong-Kong. Ou
da cultura existente no Sul da China, que se manteve fechada à
influência do Ocidente e permanece igual ao que era alguns
séculos atrás.
Macau
conseguiu criar, ao longo de mais de 450 anos, um espírito
de respeito mútuo e tolerância que gerou uma convivência
em perfeito pé de igualdade entre a comunidade macaense,
a comunidade chinesa e a comunidade portuguesa. Assim se explica
ter sido a primeira experiência de democracia representativa
no Oriente, ou ter conseguido manter uma economia de mercado,
ou ter fomentado a liberdade religiosa, com igrejas católicas
e protestantes a funcionar ao lado de templos budistas e taoistas,
entre outros, ou ainda o facto de, em Janeiro de 1996, com a entrada
em vigor novo código penal, ter sido consagrada a proibição
da pena de morte, que é punição comum na
China.
Actualmente,
Macau é uma Região Administrativa Especial da República
Popular da China e, de acordo com a vontade da sua população
e dos seus líderes, mantém características
sociais e económicas próprias segundo o princípio
"um país, dois sistemas" estabelecido na Lei
Básica da Região Administrativa Especial de Macau
da República Popular da China(*).
(*)
“A fim de salvaguardar a unidade nacional e a integridade
territorial, bem como favorecer a estabilidade social e o desenvolvimento
económico de Macau, tendo em conta o seu passado e as suas
realidades, a República Popular da China decide, ao voltar
a assumir o exercício da soberania sobre Macau, criar a
Região Administrativa Especial de Macau de acordo com as
disposições do artigo 31.º da Constituição
da República Popular da China e que, de harmonia com o
princípio «um país, dois sistemas»,
não se aplicam em Macau o sistema e as políticas
socialistas. “ (LBRAEM)
Mas
quando me lembrei de falar de Macau, pensei que, tendo sido sempre
uma porta importante para os contactos entre o ocidente e o oriente,
a Região Administrativa Especial de Macau tem uma área
de apenas 27,3 km², à dimensão de um bairro
de Lisboa mas com uma das mais altas densidades populacionais
do mundo. Macau é de facto um ponto minúsculo no
mapa, que pouca gente conhece ou sabe onde fica, mas que neste
momento é uma base de penetração comercial
no Sul da China, mercado que subitamente se transformou no centro
das atenções mundiais.
Antecedentes históricos
Antes
da chegada dos portugueses, a península de Macau era habitada
por pescadores vindos das províncias de Fukien e Cantão.
A palavra chinesa para Macau ("Ou Mun") significa literalmente
"A Porta da Baía". Porém, a palavra portuguesa
para Macau parece estar relacionada com o culto à deusa
"Á-Má" que é venerada em todo o
sul da China. Existe um templo que lhe é dedicado, à
entrada do Porto Interior de Macau. Com a construção
deste templo, o local passou a ser conhecido por "Á-Má-Gao"
(Porto de Á-Má) de onde muito possivelmente deriva
a palavra Macau.
Apesar
de já frequentarem os mares do sul da China desde 1513,
os portugueses só chegaram a Macau entre 1554 e 1557. Aqui
estabelecidos, usaram o território como entreposto comercial,
criando vários pontos de trocas, e transformando a península
do delta do Rio das Pérolas numa base lucrativa para o
comércio entre a China, o Japão e a Europa, ao longo
de séculos.
Macau foi também escolhido para centro religioso onde os
missionários se preparavam para difundir a fé cristã
e as ciências ocidentais no Extremo Oriente. É disso
um bom exemplo o famoso Colégio de S. Paulo, da Companhia
de Jesus, que foi fundado no século XVI e é considerado
pelos historiadores como a primeira universidade, ou estabelecimento
de ensino superior, da Ásia Oriental. As suas ruínas
são um verdadeiro ex libris daquela que se chamou a «Cidade
do Santo Nome de Deus de Macau».
Os
jesuítas, que aí ensinavam, tiveram de aprender
a língua, os costumes e a cultura chinesa, além
de outras culturas orientais. Mas os chineses que ingressavam
no colégio também tinham de aprender latim e estudar
a cultura ocidental, assim contribuindo para o diálogo
inter-civilizacional, que é desde sempre uma das características
de Macau.
Os
portugueses introduziram no Oriente as armas mas, também,
a física, a medicina, a arquitectura, a música e
as artes ocidentais, e levaram de volta para o Ocidente a filosofia,
a medicina, o chá, a porcelana, os trabalhos de laca, a
pintura e outros elementos da cultura chinesa.
Se
a presença portuguesa em Macau sempre foi consentida pelos
chineses, a verdade é que a soberania de Portugal só
foi oficialmente reconhecida pelo governo chinês em 1887.
No tratado então assinado em Pequim, a China confirmava
a «ocupação perpétua» do território
com governo português. Logo a seguir à revolução
portuguesa de 1974, o estatuto de Macau sofreu alterações
e em 1979, quando foram reatadas as relações diplomáticas
com a República Popular da China, Macau mudou de estatuto
passando a ser considerado território chinês sob
administração portuguesa.
As
negociações sobre o futuro de Macau começaram
em 1986 e, em 13 de Abril de 1987, Portugal e a China chegaram
a um acordo, a Declaração Conjunta sobre a Questão
de Macau, onde se afirmava que o Governo da República Popular
da China voltaria a exercer a soberania sobre o território
em 20 de Dezembro de 1999.
Cerimónia
da transferência de poderes
Foram
necessários vários anos, muita diplomacia, apurados
preparativos e ensaios meticulosos para gizar e organizar a cerimónia
que marcou a transferência de poderes de Portugal para a
China. Cerca de duas centenas de profissionais da comunicação
social do mundo inteiro fizeram a cobertura noticiosa do acontecimento
que foi transmitido em directo para todo o mundo.
Ao
longo desse dia 19 de Dezembro de 1999, sucederam-se os actos
e cerimónias que assinalaram esta transferência de
poderes. O mais marcante, do meu ponto de vista, teve lugar no
Palácio da Praia Grande, sede do governo português,
com o arriar da bandeira de Portugal. As imagens tiveram ampla
cobertura e profunda repercussão, graças à
utilização de uma linguagem cénica apurada
e carregada de simbolismo. O cerimonial, a música e o cenário
fizeram verter uma sentida lágrima a todos os patriotas
que assistiram, ao vivo ou pela televisão, aos últimos
momentos do ondear da bandeira portuguesa naquele território:
fomos os primeiros a chegar e os últimos a partir.
A
cerimónia oficial de transferência de poderes de
Portugal para a China também foi breve e carregada de simbolismo.
Houve uma preocupação de simetria, quase ao milímetro
e de sincronia, quase ao segundo, no desenrolar da cerimónia
que se realizou num pavilhão especialmente construído
para o efeito, a que foi dado o nome de Pavilhão Provisório
da Cerimónia de Transferência.
Dentro
do pavilhão havia lugar sentado para os cerca de 2.500
convidados, incluindo ministros de Negócios Estrangeiros
de mais de 60 países, cerca de 30 representantes de organizações
internacionais e outras personalidades. Tudo correu segundo o
programa pré estabelecido e o único imprevisto foi
a chuva que encharcou o longo tapete vermelho que dava acesso
ao Pavilhão.
No
fundo do pavilhão estava a tribuna central, com dois púlpitos
e quatro mastros para bandeiras. À direita de quem observava,
ficava o sector português e, à esquerda, o sector
chinês. Na parede por trás da tribuna viam-se as
duas bandeiras, a de Portugal e a da República Popular
da China, marcando cada sector e colocadas à mesma distância
do centro. Os púlpitos eram identificados pelos respectivos
escudos nacionais(*).
(*)
O escudo é apenas um dos elementos que compõem um
brasão de armas. Nos termos do Art.º 137º da
Constituição da República Popular da China
o emblema nacional é constituído pela bandeira nacional,
Tian'anmen, uma roda dentada e espigas de trigo e de arroz. O
escudo Português não é considerado pela Constituição
como um símbolo nacional, e pode ser usado em emblemas
oficiais, moedas, selos, etc.
Quando os convidados começaram a entrar no pavilhão,
já estavam hasteadas a bandeira de Portugal e a de Macau,
ou melhor dizendo, a bandeira do Leal Senado, representando a
administração portuguesa do território. Os
dois mastros centrais de cada lado do palco tinham cerca de meio
metro mais de altura do que os laterais. Estes mastros eram muito
sofisticados: apesar de a cerimónia ocorrer no interior,
havia um sistema de ar dentro dos mastros que fazia ondular as
bandeiras quando estavam no topo, tornando-as mais visíveis
e contribuindo para a simbologia da cerimónia.
Programa
da cerimónia
Os
mais altos representantes da República Popular da China
e de Portugal tomaram assento na tribuna central. A cerimóniae
começou com a intervenção do Presidente da
República Portuguesa.
Procedeu-se
depois à transferência de poderes, com a entrada
de três elementos fardados das Forças Armadas de
cada país. Os militares portugueses entraram sem nada nas
mãos mas os chineses (escolhidos a dedo no norte da China
para serem da mesma altura e mais altos do que a maioria dos chineses
presentes na cerimónia) carregavam a bandeira da República
Popular da China. Em seguida entraram três elementos das
forças policiais de cada país, novamente com os
chineses a carregarem uma bandeira, a da Região Administrativa
de Macau.
Minutos
antes da meia-noite, ouviu-se o hino nacional português(*)
enquanto a bandeira nacional e a do Leal Senado de Macau eram
arriadas ao mesmo tempo. Em seguida, à meia-noite em ponto
do dia 19 de Dezembro de 1999, cessou a Administração
de Portugal no Território de Macau, e às zero horas
do dia 20 de Dezembro de 1999, o regresso de Macau à China
foi assinalado pelos primeiros acordes do respectivo hino nacional(**),
enquanto as bandeiras da República Popular da China e da
Região Administrativa Especial de Macau eram içadas
lentamente.
(*)
Nos termos do Artigo 11º da Constituição da
República o Hino Nacional é “A Portuguesa”,
composta em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça
e música de Alfredo Keil, O hino é composto por
três partes,mas apenas a primeira parte é usada em
cerimónias oficiais, sendo as outras duas partes praticamente
desconhecidas.
(**)Apesar de não existir um Hino Nacional
chinês oficialmente aprovado existe regulamentação
própria para a sua execução bem como para
a sua protecção. Até à aprovação
do Hino Nacional, é usada “ A Marcha dos Voluntários”
que foi criada durante a revolução de 1949.
Seguiu-se o discurso do Presidente da República Popular
da China. No fim, as bandeiras portuguesas foram dobradas e levadas
para fora do palco pelos elementos das forças armadas,
com a mesma formalidade com que as outras bandeiras tinham entrado
no pavilhão. Mas desta vez, foram os portugueses os portadores
das bandeiras arriadas.
A
cerimónia tinha sido orquestrada ao segundo e a actuação
de elementos das Guardas de Honra dos dois países e bandas
militares que começara às 23:42 do dia 19 de Dezembro
de 1999, terminou às 00:17 horas do dia 20 de Dezembro
de 1999 (para não prejudicar a simetria houve necessidade
de prolongar por uns segundos os acordes do hino chinês
para que tivesse a mesma duração do hino português…).
No
final da cerimónia os dois Chefes de Estado cumprimentaram-se
com um aperto de mão e, após as despedidas da praxe,
as autoridades abandonaram o pavilhão. Durante a madrugada
de 20 de Dezembro de 1999, com início à 01:45, no
Fórum de Macau, procedeu-se à Cerimónia da
Criação da Região Administrativa Especial
de Macau perante 3500 convidados. Como dizia uma das personagens
de Os Maias, de Eça de Queirós, «tudo passa,
menos a China».
XII CONCEP –
Natal-RN- Brasil
26-28 de Outubro de 2005